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Janeiro 20, 2008
não acredito em nada que esteja fora do meu alcance.
acredito apenas em...
sexo
numa rua de terra, debaixo de um sol escaldante, meia dúzia de crianças brincam sem brinquedos e cantam sem música. as mais nova são vigiadas por uma menina que aparenta ter completado onze ou doze anos. os garotos correm atrás de um cachorro igualmente magro.
separada apenas por uma cerca mal-colocada, ergue-se uma casa sem cor, assim como o resto do cenário. uma casa quadrada com paredes de tijolos sem acabamento e apenas uma janela e uma porta estreita de frente para a rua.
atrás da porta não há segregação dos cômodos com exceção do único sinal de privacidade, uma divisa improvisada com um lençol pendurado na entrada do que parece ser um quarto. dentro deste cubículo abafado, duas pessoas despem-se rapidamente do pouco de roupa que ainda usam. a mulher desenrola um lenço branco da cabeça e deixa cair sobre os ombros um tanto de cabelo muito comprido e escuro. ela abre um sorriso sincero que parece desencadear o rompimento de rugas em seu rosto frequentemente rígido, sem expressão.
ele arranca a camisa de modo afobado e joga-a num canto, faz o mesmo com as botas. segura a mulher pelos ombros e a deita na cama.
- vamo logo que é já que as criança tão de volta. - diz ela em tom ansioso quando seu marido começa a beijar-lhe o pescoço enquanto passa a mão por dentro de seu vestido.
- deixa de besteira. elas tão brincando, vamo ficá eu mais tu um tempão...
amor
acordou ainda com as pernas dormentes, estava coberta até a cintura e a cama havia sido inclinada um pouco para frente. uma senhora dormia sentada numa poltrona ao lado de seu leito com um livro apoiado nas pernas e os óculos ainda no rosto. piscou algumas vezes até conseguir focar o resto do quarto, a luminosidade que entrava pela grande janela tornava isso mais difícil, reparou que havia um vaso de flores sobre a mesa de cabeceira. depois de alguns segundos observando a respiração lenta da senhora, ouviu algumas batidas fracas na porta seguidas do ruído da maçaneta girando. ao mesmo tempo em que virou-se para ver o que era, sua mãe acordou e se levantou rapidamente ainda assustada, mas abriu um enorme sorriso quando a porta se abriu por completo.
uma moça usando touca e avental se aproximou da cama, a mulher deitada esticou os braços e recebeu o bebê ainda envolto num cobertor.
- meu filho... -sussurrou ela após dar um beijo em sua testa.
ao dizer isso, lágrimas escorreram pelo seu rosto.
e morte
um grupo de cerca de vinte pessoas andavam junta e silenciosamente por um campo muito grande. o verde da grama e o azul do céu não combinavam nem um pouco com o preto das roupas pesadas que todos usavam.
o vento forte fazia balançar a copa das poucas árvores crescidas ali.
pararam de andar e formaram um círculo deixando ao centro o enorme buraco que fora cavado ali. ninguém quis dizer nenhuma palavra.
antes que começassem a baixar a urna em diração ao fundo da fenda, um senhor se precipitou segurando firmemente uma rosa vermelha em uma das mãos, como se ela quiesse fugir.
deu um beijo na flor e fitou durante alguns segundo o caixão, então colocou-a cuidadosamente sobre ele.
sem derramaram uma só lágrima, o senhor disse muito baixo:
- vá em paz, meu anjo.
leandroferreira
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Dezembro 23, 2007
a caixa
entrei na cozinha à procura de algo que aliviasse a dor. abri e fechei todas as gavetas e portas, nada na despensa, geladeira. então, em cima de um dos armários, uma caixa de metal me fez lembrar aquela outra, feita de madeira, que ficava no quarto.
hesitei, não sabia se deveria, se queria, aquilo poderia piorar meu estado. existe algo pior do que o passado? nem lembrava há quanto tempo tinha aberto-a da última vez para colocar algum souvenir, uma lembrança, ou qualquer outra coisa que datasse um momento.
conclui que nem lembranças, por mais noltálgicas que fossem, me deixariam pior, quem sabe não me recordaria de algo bom, guardado bem no fundo da caixa, talvez algo da infância, uma foto, quem sabe.
andei pelo corredor com um misto de ânsia e temor pelo que poderia encontrar. entrei no quarto, fechei as cortinas, como se quisesse esconder aquele momento de qualquer pessoa que espiasse pela janela. abri a porta mais alta do guarda-roupas velho, atrás dos cabides, numa prateleira, cercada de presentes de natais passados estava a caixa, coberta de pó, com o fecho de ferro enferrujado.
tirei-a de lá, sentei na beirada da cama, fitei aquele depósito de lembranças por alguns segundos. resolvi finalmente abrir e encarar aquela viagem, independente do destino.
corri o dedo pelo fecho e abri-o. fechei os olhos e com as duas mãos levantei a tampa.
tudo o que senti foi um cheiro, não de mofo nem nada que acusasse o tempo. era um perfume, um perfume doce, que me trazia direto ao presente, nada de lembranças, somente o presente. inspirei profundamente.
depois de alguns segundos de olhos fechados, sentindo aquele perfume, abri os olhos. de dentro da caixa, todas as minhas lembranças haviam sumido, nada de cartas antigas, tickets de cinema, convites de festas, nada de passado.
só o que a caixa estava guardando para me dar era o perfume, o perfume do presente.
leandroferreira
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Novembro 3, 2007
faixa de pedestre
espere, não muito perto.
mantenha uma distância segura.
observe, vermelho vermelho vermelho
verde.
olhe para os dois lados,
para os dois lados.
avance, se estiver acompanhado,
não dêem as mãos,
é mais fácil correr sozinho.
dê passos largos,
seguros e firmes.
observe observe.
não olhe para as faixas,
escute os carros.
verde verde verde
desvie de quem vem na direção contrária.
continue andando, até atravessar.
vermelho.
pare, mantenha distância segura.
não olhe para trás.
leandroferreira
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Outubro 20, 2007
essas palavras, cuidadosamente escolhidas, eu dedico à você,
que me olha de relance e corre pra longe do meu alcance.
que dança de maneira engraçada,
pra me fazer dar risada.
que de longe deixa ser ouvida falando bem alto,
deixando-me na dúvida: estará ela hoje alegre, brava ou diante um assalto?
que desfila em casa de pijama e sapato vermelho, e faz caretas ao espelho.
a você, que lê bula de remédio fazendo trocadilho,
que me faz andar no trilho e me tira do tédio.
que goza as roupas das pessoas na rua,
mas odeia quando o faço com a sua.
a você que me dá emoções que nunca sentira,
inconstância, quietação, ânsia, excitação,
e uma alegria tão intensa quanto uma ira.
enfim, eu dedico à você,
que sorri assim de lado, fazendo com que eu não resista,
e eu só posso lamentar o fato de que você não exista.
leandroferreira
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Setembro 12, 2007
ficará tudo trancafiado atrás dessa porta intransponível que é a sua cabeça.
compartilhará segredos íntimos e planos futuros com alguém que sequer conhece,
certo dia, pela manhã, sentará no sofá e apenas observará o andamento do trânsito lá embaixo,
verá fotografias nunca tiradas, de momentos não vividos.
brindará à laços que não foram consolidados,
terá sentimentos unilaterais.
juras e promessas não terão valor algum,
quadros tortos, portas abertas, pares desfeitos, nada disso incomodará.
livros em branco mostrarão um novo mundo,
rabiscos e formas serão obras-de-arte,
retribuirá sorrisos escondidos.
ficará tudo escondido dentro dessa sala inatingível que é sua cabeça,
e você nunca saberá o porquê.
leandroferreira
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Setembro 2, 2007
espera
atravessou o longo corredor banhado de uma luz forte que refletia no chão. parou diante da última porta, hesitou uns segundos e entrou.
- nina, já disse que não quero te ver aqui - disse um homem jovem, olhava pela janela ao lado sentado na beira da cama.
- eu sei, mas eu não consigo, preciso te ver.
- não é lugar pra você.
- muito menos pra você.
nina fechou a porta e colocou sua bolsa em cima da mesa-de-cabeceira.
- eu trouxe uma coisa pra você ver.
- o que é? - suspirou o homem, só agora encarando-a.
- são fotos, você vai gostar!
- não são da mamãe, não é? porque se for, eu não quero nem ver, depois de tudo... -ao dizer isso, o jovem de cabelos e barba mal cuidados se levantou rapidamente.
- não! não são dela - interrompeu nina. tirou da bolsa um envelope grande, branco. nele estavam uma dúzia de fotografias. -são minhas, dos meus quadros, da exposição que começou semana passada.
o homem pegou as fotos e começou a vê-las, observando muito atentamente cada uma, seus olhos passavam por cada detalhe. sem fazer nenhum comentário, ele viu uma por uma. ao passar por uma que mostrava nina ao lado de um quadro com cores muito suaves e linhas finas, ela disse:
- escolhi esse, seu preferido, pra estar na minha primeira exposição, ele está bem na entrada.
o jovem olhou mais atentamente para esta foto, parecia absorver a alegria expressada pela irmã na foto. esboçou um sorriso tímido.
- parabéns pela exposição. -disse isso guardando as fotos no envelope e colocando-o dentro de uma gaveta.
nina andou até a janela, de costas para o irmão e com as mãos junto a boca, como se estivesse rezando, disse sorrindo:
- eu tenho outra novidade.
- qual?
- você vai ganhar uma sobrinha. fiquei sabendo hoje, você é o primeiro a quem eu conto.
sem dizer uma só palavra, o jovem foi até a irmã e deu-lhe um longo abraço.
a moça já não se esforçava mais em tentar conter as lágrimas
passado um ou dois minutos ali, parados diante da janela abraçados, o homem disse:
- eu prometo que eu vou visitá-la da próxima vez, prometo. -ele então voltou a sentar na beira da cama.
nina enxugou as lágrimas e com um beijo na testa disse:
- não se preocupe. quando ela nascer, quero que você já esteja lá de volta. todos queremos...
o homem apenas lançou um olhar culpado à irmã que já se dirigia para a porta, e parando um último momento, despediu-se:
- se cuida.
leandroferreira
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Agosto 12, 2007
sem moldura
com dois giros da chave na fechadura a porta se abriu. acendeu a luz fraca e amarelada que iluminou a mesa de centro coberta de revistas e um cinzeiro.
pendurou a mochila no encosto da cadeira e foi direto para o único quarto do apartamento. enquanto jogava um monte de roupas que estava em cima da cama para dentro do armário, olhou de relance para o espelho pendurado na parede lateral, então parou e endireitou a postura, encarando-se de frente.
mirou seu reflexo por alguns segundos. tinha medo dos pensamentos que sabia que viriam a seguir.
sempre pregou em sua vida o discurso de ser livre, de ser como é, de se aceitar.
mas naquele momento, onde já tinha sua liberdade, sua independência, não conseguia sentir-se confortável, feliz por completo.
nada ali o agradava, talvez aquela seria uma projeção sua daqui há vinte anos, quando já estaria desacreditado de todos os seus sonhos, conformado com as lutas perdidas e acomodado em seus ideais.
pensou ter ouvido a voz de sua mãe dizendo que ele parecia doente e precisava se alimentar. o som de carros buzinando na rua o fez despertar. 'preciso jogar esse espelho fora...'
voltou para a sala com os olhos semicerrados, sentou no sofá e pousou o olhar em cima de um anuncio numa das revistas que mostrava os efeitos imediatos proporcionados pelo recém-lançado aparelho de emagrecer dormindo.
soltou um riso irônico e ligou a televisão.
leandroferreira
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Julho 13, 2007
andares passados
toda vez que caminho por essas ruas irregulares, passando por calçadas cobertas por folhas secas, e outras vezes muito bem cuidadas, lembro-me de quando fazia esse caminho voltando para casa e pensando nos momentos que acabara de viver.
nem precisávamos prometer que aquilo nunca acabaria, já estava subentendido que assim seria.
o sol baixava, encerrando somente uma página, mas não o livro.
havia a certeza de que ruas seguiriam na mesma direção, cruzando hora ou outra.
mas hoje as ruas não seguem mais, elas não têm mais saída, acabam em muros brancos, sem graça, sem cor, vazio.
nesse caminhar pelo passado, é impossível apagar as histórias presenciadas por essas ruas e esquinas.
só é possível lembrá-las.
leandroferreira
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Maio 27, 2007
os teus olhos
eu fui te descobrindo aos poucos. bem devagar fui lendo cada página do livro desconhecido que era você.
todos os planos traçados anteriormente foram deixados de lado, conforme abria caminho por entre cada gosto, cada desejo e cada medo seu..
percebi que o caminho pelo qual escolhi percorrer tão repentinamente não tinha volta. mas isso não me incomodava, poderia parar e ficar somente observando a mais bela paisagem já vista, pelo resto dos meus dias.
mas então eu vi os teus olhos, olhos marcantes, olhos que me refletiam exatamente como sou, quase um espelho perfeito. e foi ali que eu descobri que aquela paisagem não era completa sem eles, os teus olhos.
leandroferreira
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Maio 4, 2007
deadline
não era o emprego que sempre sonhou, mas pelo menos trabalhava em casa, sossegado para criar. escrevia contos semanalmente para uma revista dessas que as madames adoram ler na sala de espera do consultório médico.
restavam duas horas para o fechamento daquela edição da revista e ainda não tinha nada escrito na tela de seu laptop. nem o som de sua banda favorita, muito menos a televisão ligada nos noticiários internacionais lhe davam algum fio de criatividade naquela tarde cinza.
há algum tempo vinha escrevendo sobre sua vida pessoal. maquiada, disfarçada em contos para agradar aos leitores. afinal, sua vida nem era tão intensa assim.
- ah! que coisa mais inútil! ficar escrevendo historinhas românticas para essas peruas, que não têm mais o que fazer, passarem o tempo!
sempre que passava pelo temido hiato criativo, ele tinha crises de questionamento da própria profissão.
- eu queria mesmo é trabalhar na praia. num quiosque. tomando cerveja o dia todo!
a mesa já estava cheia de papéis desenhados e amassados - desenhar era seu hobbie - nem pra isso estava prestando hoje.
- pensando bem. até que eu sou feliz. sempre quis morar sozinho, e moro. sempre quis ter um carro bom, não um novinho em folha. mas um carro bom, e tenho. consegui planejar meu apartamento do jeito que...
foi então que viu, pendurado na maçaneta do quarto, o cachecol. vermelho vivo. o cachecol que ela havia esquecido ali na noite anterior.
estava saindo com ela há umas três semanas, e apesar de ser recente, já tinha um sentimento forte, sentia que poderia dar certo. depois de muitas tentativas, via nela uma oportunidade de coisa séria.
e ela parecia sentir o mesmo por ele. sempre que saíam, os carinhos rolavam com uma intensidade muito forte. e na maioria das vezes só terminavam no dia seguinte, ao amanhecer, na cama.
mas antes mesmo que ele pudesse pensar em escrever sobre ela na crônica da semana, seu celular tocou ao lado da televisão. levantou da cadeira e foi atender. era ela.
aproveitou o momento para falar ao celular na varanda, respirando ar puro. procurando inspiração.
- alô.
- oi. tudo bem?
- oi! comigo tá tudo bem e com você? viu, você esqueceu sei cachec...
- eu preciso te falar uma coisa.
- o que? aconteceu alguma coisa? sua voz tá estranha...
- espera. escuta, só escuta.
- quer que eu vá até aí...
- só escuta! por favor.
- ta bom, pode falar.
- acho melhor a gente não se ver mais.
- mas...
- não sei se vai dar certo. sabe, no começo foi legal mas...
- foi alguma coisa que eu fiz...
- não! não é isso. é que, sei lá, eu tentei, juro que tentei, mas...não sinto mais o lance da atração física por você.
- como assim? o que quer dizer? não estou satisfazendo você? ontem mesmo você disse que foi a melhor noite que já teve...
- eu sei. mas, é que não dá mais certo pra mim. e eu acho melhor ficar por aqui.
- mas e...
- é isso que eu tinha pra falar. por favor, não me procura mais. se cuida. beijo.
- beij...
e ficou ali. segurando o celular como se ainda esperasse a voz do outro lado revelar que aquilo era uma brincadeira de mal-gosto.
de repente deu a volta, entrou na sala rapidamente, sentou na cadeira abriu o computador e começou a digitar com rapidez ao mesmo tempo em que pensava: 'nada que mudar os nomes, inventar uma traição e forjar uma volta por cima, não agrade às dondocas...'
leandroferreira
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